Número 18 / DICIEMBRE, 2022 (213-228)
AS PAISAGENS NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO
ARQUEOLÓGICO
LANDSCAPES IN THE HISTORY OF ARCHAEOLOGICAL
THOUGHT
LOS PAISAJES EN LA HISTORIA DEL PENSAMIENTO
ARQUEOLÓGICO
DOI:
Artículo de Reexión
Recibido: (25/03/2022)
Aceptado: (26/07/2022)
https://doi.org/10.37135/chk.002.18.15
Professor Ocasional Universidad Nacional de
Chimborazo, Riobamba, Equador, Doutorando em
Arqueologia, Museu de Arqueologia e Etnologia da
Universidade de São Paulo, Brasil
alex.alves@unach.edu.ec
Alex De Barros
AS PAISAGENS NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO ARQUEOLÓGICO
Número 18 / DICIEMBRE, 2022 (213-228) 214
AS PAISAGENS NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO
ARQUEOLÓGICO
LANDSCAPES IN THE HISTORY OF ARCHAEOLOGICAL
THOUGHT
LOS PAISAJES EN LA HISTORIA DEL PENSAMIENTO
ARQUEOLÓGICO
Entendendo a arqueologia como a mais interdisciplinar das ciências, esta associada a
consolidação de um recente arcabouço teórico e de métodos próprios ajunto a necessidade
incondicional de associar os conceitos propostos à prática, o presente artigo tem como
proposta tecer uma breve discussão sobre o conceito de arqueologia da paisagem e seus
desdobramentos no que diz respeito a história do pensamento arqueológico. Por meio de
uma correlação e descrição arqueográca entre as diferentes escolas, conceitos e seus
principais autores, apresentaremos um panorama geral do uso dos conceitos das paisagens
no âmbito da interpretação dos contextos de interação entre humanos, meio ambiente e
materialidade, assim como sua problemática e alcance no escopo de atuação da arqueologia
brasileira.
PALAVRAS-CHAVE: Arqueologia da paisagem, lugares, teoria e método, história do
pensamento arqueológico, arqueologia brasileira
Understanding archeology as the most interdisciplinary
of sciences associated with the consolidation of a current
theoretical framework and its methods, together with the
unconditional need to associate the proposed concepts
with practice; this article proposes to weave a brief
discussion on the concept of archeology of the landscape
and its unfolding concerning the history of archaeological
thought. Using an archaeological correlation and
description between the dierent schools, concepts, and
their main authors, we will present an overview of the use
of landscape concepts in the context of the interpretation of
the contexts of interaction between humans, environment,
and materiality, as well as its problematic and range
within the scope of Brazilian archeology.
KEYWORDS: Landscape archeology, places, theory
and method, history of archaeological thought, Brazilian
archeology
Entendiendo la arqueología como la más interdisciplinar
de las ciencias, está asociada a la consolidación de un
reciente cuerpo teórico y de métodos propios, junto a
la necesidad incondicional de asociar los conceptos
propuestos con la práctica, el presente artículo se
propone tejer una breve discusión sobre el concepto
de la arqueología del paisaje y su desdoblamiento con
respecto a la historia del pensamiento arqueológico.
Mediante una correlación y descripción arqueográca
entre las diferentes escuelas, conceptos y sus principales
autores, se presenta un panorama del uso de los conceptos
de paisaje en el contexto de la interpretación de los
contextos de interacción entre humanos, medio ambiente
y materialidad, así como su problemática y alcance en el
ámbito de la arqueología brasileña.
PALABRAS CLAVE: Arqueología del paisaje, lugares,
teoría y método, historia del pensamiento arqueológico,
arqueología brasileña
RESUMO
ABSTRACT RESUMEN
Alex De Barros
CHAKIÑAN. Revista de Ciencias Sociales y Humanidades / ISSN 2550 - 6722 215
INTRODUÇÃO
Sob a perspectiva da arqueologia, independente
do assunto a ser tratado no que diz respeito
a interpretação dos diferentes contextos e
materialidades de uma maneira intencional
ou não, a problemática das paisagens sempre
fará parte de qualquer premissa, entendendo as
dimensões espaciais/geográcas e temporais
inerentes as paisagens recorrentes nas discussões
arqueológicas. Os conceitos intrínsecos a
paisagem como ambientes, ecologia, recursos,
espaços e lugares, foram tratados de diferentes
maneiras, sob a ótica das diferentes escolas e
concepções da arqueologia enquanto ciência.
A arqueologia do século XXI caracteriza-
se por ser tanto uma atividade laboral
de campo, como uma busca intelectual
cientíca e laboratorial. Tem como
principal objetivo o estudo dos variados
sistemas socioculturais, que abrangem
desde sua gênese estrutural, mecanismos
e dinâmicas em relação a permanências,
mudanças e transformações culturais
no decorrer do tempo e espaço, noções
do comportamento humano em relação
ao ecossistema, paisagens e fenômenos
que intermedeiam essas relações, tendo
como fulcro o estudo da cultura material
evidenciada em contextos de interação
humana. (De Barros 2018:20)
Nesta perspectiva, a arqueologia contemporânea
entendida como a mais interdisciplinar das
ciências (Araujo 2019; Bicho 2011), se apresenta
como uma disciplina humanística e histórica,
atuando exitosamente como uma ciência
social relacionada as ciências da terra, e mais
recentemente acompanha o desenvolvimento
das inovações atômicas introduzidas ao campo
acadêmico a partir da metade do século XX,
resultando em um importante acercamento às
ciências físicas e químicas.
Apesar de sua jovialidade no que diz respeito a
consolidação de seu corpus teórico e de métodos
próprio, num lócus de pouco mais de um século
de prática da famigerada história do pensamento
arqueológico (Trigger 2004), é possível identicar
e caracterizar o arcabouço de compreensões
sobre a adoção das paisagens arqueológicas para
a elucidação dos espaços ocupados e adaptados
pelas práticas socioculturais e comportamentais
humanas.
Com uma assertiva orientação das ciências
geográcas e ambientais (Morais 2011, 2012;
Wagner 1972), passando por uma ampliação e
desenvolvimento da ciência por meio do uso
de tecnologias espaciais e de sistematização
de dados (Binford 1962; Clarke 1972), mais
recentemente, adjunto ao novo caráter holístico
da ciência arqueológica, temos um acercamento
a premissas antropológicas, fenomenológicas e
comportamentais (Cosgrove 1984; Ingold 2001;
Zedeño & Bowser 2009; Kormikiari 2014), a
questão das paisagens ou paisagens culturais
possibilitou uma melhor compreensão da relação
da interação contínua entre humanos, ambientes
e materialidade.
METODOLOGIA
No presente artigo de reexão tecemos um
panorama geral relacionado a paisagem
enquanto paradigma teórico em relação ao seu
desdobramento na prática arqueológica, levando
em consideração sua evolução enquanto conceito
e seus diferentes entendimentos, escolas e
principais autores, trazendo como principais
referências Binford (1962, 1978, 1980, 1983),
Kormikiari (2014), Schlanger (1992), Zedeño
(2008) e Zedeño e Bowser (2009).
Em uma organização metodológica que valora
o enfoque qualitativo permeando a revisão
da literatura especializada e suas principais
problemáticas, interpretações e signicados, com
desenho de investigação de narrativa sistemática
(Hernández, Fernández y Baptista 2014),
onde explicaremos os diferentes processos e
fenômenos vinculados à aplicação do conceito
de paisagem em relação a ciência arqueológica.
AS PAISAGENS NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO ARQUEOLÓGICO
Número 18 / DICIEMBRE, 2022 (213-228) 216
Ocorrendo uma clara linearidade histórica sobre
o desenvolvimento da temática, organizamos o
presente manuscrito com a proposta de apresentar,
correlacionar y contextualizar os principais
períodos, autores, escolas e epistemologias que
trabalharam com a terminologia das paisagens
ou ans, discutindo e reexionando sobre
suas premissas, e por m, teceremos um breve
panorama de atuação e possíveis caminhos para
a sequência da temática em seu campo prático e
teórico na arqueologia brasileira.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Independente da corrente teórica ou premissa
seguida, a arqueologia da paisagem hoje pode
ser considerada como um conceito unanime
aceito pelos acadêmicos (com alguma formação
em arqueologia), sendo possível vericar pelo
menos um capítulo dedicado a temática nos
diferentes clássicos manuais da disciplina
(Trigger 2004; Bicho 2011; Price & Knudson
2018; Renfrew & Bahn 2004), e apesar de sua
ampla disseminação enquanto premissa teórica e
por vezes metodológica, é factível vericar uma
ampla problemática no que diz respeito a sua
discussão entre as diferentes escolas e premissas
epistemológicas, possivelmente inerentes a
ausência de diálogos entre os diferentes grupos,
assim como por uma eventual barreira imposta
pelo idioma.
A PAISAGEM NA HISTÓRIA DO
PENSAMENTO ARQUEOLÓGICO
Apesar de se tratar de uma premissa que vai além
de caracterizar um background onde as relações
humanas são tecidas (Ashmore & Knapp
1999; Zedeño & Bowser 2009; Ingold 2001), a
terminologia arqueologia da paisagem gura os
jargões clássicos das temáticas da arqueologia
mais recentemente (Fleming 2006; Kormikiari
2014).
Ademais de ainda ser considerada uma área
auxiliar ou secundaria (Morais 2011, 2012),
segue a premissa de uma arqueologia de campo
e a partir do manuscrito de Hoskins publicado
originalmente em 1955 com o título The Making
of the English Landscape (Hoskins 2013) vemos
a temática propriamente em pauta, resultando
a cunhagem do conceito a partir da publicação
Landscape Archaeology: In introduction to
ldword techniques in Post-Roman landscape
em 1974 por Mick Aston e Trevor (1974)
(Kormikiari 2014).
A arqueologia da paisagem toma distintas
interpretações dependendo do autor, escola
e período, não obstante, a temática deve ser
entendida nas entrelinhas pois mesmo ocorrendo
a ausência de sua conguração conceitual nos
períodos iniciais da arqueologia, não se pode
ignorar sua intrínseca presença no que diz
respeito a interpretação dos lugares e as pessoas,
adotando premissas da geograa e das ciências
da terra, a paisagem se caracteriza como uma
construção social (Santos 1994, 1996a, 1996b,
1997) e deve ser entendida dentro desta dinâmica.
Uma Arqueologia da Paisagem, ou do Lugar,
impõe a interdisciplinaridade e o diálogo
com perspectivas teóricas distintas. Mas
o que são paisagens? e como a abordagem
paisagística pode facilitar a compreensão
dos processos históricos e culturais na
Arqueologia? Neste sentido, a abordagem
da paisagem é relevante para o objetivo da
Arqueologia de explicar o passado humano
por meio de sua habilidade em reconhecer
e avaliar as relações interdependentes e
dinâmicas que as pessoas mantêm com as
dimensões física, social e cultural de seus
meio-ambientes ao longo do tempo e do
espaço. (Kormikiari 2014:5)
As paisagens, concebidas como lugares
signicativos, adaptados, biográcos e
econômicos, exercem relações entre os seres
humanos e o ambiente por intermédio da
cultura material ou da materialidade, está é uma
premissa básica para a compreensão do ser e
estar na paisagem, da qual, é possível vericar
e caracterizar sua assinatura (Gould 2009; De
Barros 2021).
Alex De Barros
CHAKIÑAN. Revista de Ciencias Sociales y Humanidades / ISSN 2550 - 6722 217
Estes fenômenos são passíveis de identicação
desde as primeiras formas de organização
social, seja por meio da adaptação de ambientes
especícos para a realização de manifestações
rupestre (Finlayson & Warren 2018; Cummings,
Jordan & Zvelebil 2014), por períodos de
domesticação destas paisagens iniciadas por
processos de sedentarizarão (Fleming 2006; Lau
2010; Zedeño 2008), até a ampla modicação
destes meios, comuns as sociedades mais
hierarquizadas e com processos de urbanização
(Adams 1989; Zedeño & Bowser 2009), nos
permite armar que a relação destes grupos com
o meio vai além de uma questão econômica.
In addition to agricultural elds
and farming techniques, the Anasazi
technological repertoire included domestic
structures, storage facilities, agricultural
processing facilities, eld camps from
which wild resources and raw materials
were collected, and the tools needed for
planting, harvesting, processing, and
preparing a wide variety of foods. The
Anasazi established at least two types of
facilities on the landscape: habitation loci
and limited activity loci. Previous work
(Schlanger & Orcutt 1986) suggests that
habitation loci were used as residential
components and were the site of several
features including domestic structures,
substantial shelters for inhabitants and for
storing goods, and facilities for carrying
out personal maintenance activities
including food preparation, storage,
consumption, tool manufacture, tool repair,
and other activities associated with living
at a residential base. (Schlanger 1992:97)
Quiçá, antes mesmo de conceber a arqueologia
como ciência, este fenômeno tem sua
aplicabilidade conrmada na história do
pensamento arqueológico, do qual, temos o
período dos colecionistas e dos gabinetes de
curiosidades como uma primeira possibilidade
da aplicação das questões da paisagem.
Mediante a organização de espaços e
classicações materiais de acordo a uma
incipiente tipologia, cronologia e origem
geográca, acorre uma reconstrução em muitos
casos hipotética de uma paisagem controlada, e
outras pouco mais realistas, com a reconstrução
de espaços etnográcos contemporâneos a estas
práticas (Impey & Macgregor 2001; Trigger
2004; Figueiredo e Vidal 2013).
Mesmo que seja uma premissa meramente
ilustrativa, é possível identicar uma natural
necessidade em associar os materiais a suas
paisagens originais com o objetivo de consolidar
possíveis narrativas para esta dinâmica,
vericando uma aproximação a história da
arte, que precisamente constitui as pinturas de
paisagens ou landscape painting como gênero
artístico na Europa por volta do século XVII
(Cosgrove 1984; Gombrich 2019).
Seguindo esta sequência histórica, a prática
arqueológica do século XVIII expande
sua dimensão colecionista à grande busca
de relíquias do passado, em muitos casos,
interpretando e reinterpretando documentos
clássicos para o descobrimento (evidencia)
de cidades perdidas ou da reconstrução de
dinâmicas históricas do passado mediante
a busca e escavação de sítios mitológicos,
nascendo nesta ocasião a arqueologia clássica,
como é o caso das escavações em Herculano e
Pompeia (Rodríguez 2011).
Neste sentido, estes primeiros trabalhos também
apresentaram o conceito de paisagem atrelado
a uma representação simbólica/mitológica e
ambiental meramente descritiva dos seus locais
de origem, uma vez más vemos a representação
da historia da arte como eixo interpretativo.
Logo da breve descrição dos primeiros
momentos da pratica arqueológica amadora ou
incipiente, para o século XIX e XX, ocorre uma
ampla consolidação da ciência arqueológica em
relação as técnicas de campo e interpretações
dos contextos arqueológicos (Wheeler 1955,
1979; Woolley 1940; Kenyon 1957, 1971). Nesta
conjuntura, as ciências da terra passam a gurar
o corpus teórico e metodológico da arqueologia,
dando início a interdisciplinaridade da disciplina
junto a outras ciências, em especial da geograa
e da geologia (Vita-Finzi & Higgs 1970; Roper
1979).
No arcabouço do desenvolvimento da arqueologia
histórico culturalista, temos os primeiros intentos
de reconstrução das paisagens antigas e da
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designação da importância de nichos ambientais
especícos que possibilitaram a consolidação
dos primeiros grandes assentamentos humanos,
para logo, as primeiras urbanizações e cidades.
Seguindo este programa interpretativo, se
destacam os trabalhos de Childe (1950, 1973,
1978, 1981) com estudos sobre a pré-história
europeia e do oriente médio mediante a
adoção de noções marxista sobre questões de
estruturas sociais e do materialismo histórico,
consolidando-se importantes paradigmas, como
as revoluções culturais (Neolítica e Urbana) que
perpassando o entendimento das continuidades e
mudanças culturais.
A questão de ambientes que conguraram o
sucesso dessas revoluções, como a identicação
de enclaves-chave para os desenvolvimentos
de sociedades agrícolas (Zedeño & Bowser
2009) e questões incipientes de domesticações
vegetais, mesmo não utilizando a terminologia
das paisagens, é possível vericar indícios de
questões de lugares persistentes, paisagens
sagradas e lugares signicativos em sua
concepção econômica (Cosgrove 1984;
Schlanger 1992; Trigger 2004).
Persistent places are places that were
repeatedly used during long-term
occupations of regions. They are neither
strictly sites (that is, concentrations of
cultural materials) nor simply features
of a landscape. Instead, they represent
the conjunction of particular human
behaviors on a particular landscape.
Persistent places fall into one or more of
the following categories. First, a persistent
place may have unique qualities that make
it particularly suited for certain activities,
practices, or behaviors... Second, a
persistent place may be marked by certain
features that serve to focus reoccupations.
(Schlanger 1992:97)
É notável uma agenda acadêmica singular
anglo-saxônica para os exemplos a pouco
apresentados, o que não ausenta a presença de
outros grupos europeus, ocorrendo um destaque
as premissas da escola francesa neste escopo.
Ainda no século XVIII, surge um interesse
motivado pelas viagens de naturalistas as
colônias, em especial as americanas, sobre
aspectos tecnológicos, materiais e sociais
destas de culturas contemporâneas em relação
a materialidade europeia pretérita (Pelegrin
2020). A observação e descrição destas exógenas
paisagens visitadas, geraram inquietações e
premissas para o entendimento da relação desta
beleza virgem natural como um condicionante
as formas de vida ancestrais.
Avançando na cronologia de atuação da escola
francesa, frente a adoção de um arcabouço
teórico e metodológico da sociologia em
especial junto aos trabalhos de Durkheim (1990,
1997) e Mauss (2003, 2008), no campo da
arqueologia temos a adoção da peleoetnograa
promovida por Leroi-Gourhan (1950, 1964a,
1964b, 1972), incorporando uma perspectiva
técnica, comportamental, econômica, espacial
e sociocultural as interpretações, ocasionando
o desenvolvimento do conceito da chaîne
opératoire.
Este conceito perpassa o entendimento da
existência de uma intrínseca relação entre o
comportamento humano e a cultura material,
intermediada pelas dinâmicas ambientais,
que mais do que fazer plano de fundo a estas
dinâmicas, são responsáveis pela existência das
mesmas, seguidas por outras compreensões no
escopo das econômicas das paisagens, como o
conceito économie du débitage et économie des
matières premières proposto por Perlès (1980).
Ainda que não ocorra uma direta citação da
terminologia das paisagens, para Leroi-Gourhan,
não é possível compreender a dimensão cultural
sem levar em consideração a relação das
populações pretéritas com a paisagem/ambiente,
como um delineador das histórias humanas de
longa duração, onde as manifestações humanas
são traduzidas pela materialidade, que por sua
vez são produto do comportamento humano,
organizadas dentro de um sitio e seu entorno que
propiciam a consolidação de comportamentos
técnicos sociais.
Os programas a pouco apresentados se tratam de
iniciativas de investigadores europeus, e parte
desta concepção acompanha o panorama social
destes contextos, em grande parte colonialista e
notavelmente particularista no que diz respeito
Alex De Barros
CHAKIÑAN. Revista de Ciencias Sociales y Humanidades / ISSN 2550 - 6722 219
ao outro (Dmitriev 2009; Hamilakis 2016;
Silliman 2015).
Os eventos que procedem esta dinâmica estão
associados ao nal das colônias e a expansão
econômica de novas potencias, como é o caso
dos Estados Unidos, que passa a rivalizar os
antigos centros de produção de conhecimento,
quiçá com um olhar mais próximo as alteridades
locais.
Acompanhando os grandes avanços da ciência
com as teorias evolucionistas consolidadas
por Darwin e com a valoração dos estudos
etnográcos em diferentes partes do mundo,
perguntas originadas nestes contextos começam
a chamar a atenção e a arqueologia também
segue esta premissa para formular seu arcabouço
interpretativo (Zedeño 2008; Zedeño & Bowser
2009).
Orientados por esquemas antropológicos
evolutivos sobre as paisagens (Morgan 1877;
Tylor 1958; 1971; White 1959), acompanhando
as premissas das ciências biológicas, novos
esquemas evolutivos e sistemáticos foram
aplicados a arqueologia, em grande parte
com estudos realizados no continente
americano com o enfoque na compreensão do
desenvolvimento das sociedades em relação ao
grau de desenvolvimento, fatores ambientais que
condicionam ou impulsionam uma dita evolução
cultural.
Para estas premissas se destacam os conceitos
de fronteiras culturais mediante o diagnóstico
de ecótonos, complexos sociobiológicos
e parâmetros ambientais que regulam as
sociedades, com o exemplo mais clássico das
limitações ambientais (paisagens inóspitas
ou não favoráveis ao desenvolvimento de
sociedades complexas, paisagens condicionantes
!?) permeadas pelo determinismo ecológico e a
ecologia cultural em especial aplicadas para as
terras baixas amazônicas (Evans & Meggers
1968; Meggers 1942, 1971, 1990; Meggers
& Evans 1957) e as terras baixas maias e
Mesoamérica central (Armillas 1949, 1950;
Sears 1951; Palerm 1954, 1955; Bullard 1960;
Sanders 1962, 1965).
A arqueologia moderna foi delineada a partir
esquemas neoevoluciostas, neopositivistas e em
especial com a aplicação do modelo nomológico-
dedutivo ou empiricista de Hempel (Araujo
2019), que é complementado pela adoção de
novas tecnologias originadas no contexto pós
segunda guerra mundial, datações absolutas,
tecnologia espacial, analises biológicas e
ambientais em edição a uma sistematização
excessiva do registro arqueológico, dão origem
a denominada New Archaeology, ou arqueologia
processual, encabeçada por Lewis Binford.
A Nova Arqueologia surge como uma crítica
aos anteriores modelos teóricos, em especial
ao histórico culturalismo, assim como pelo
seu grande afã de cada vez mais consolidar a
arqueologia como uma ciência independente
e relacionada a antropologia (Binford 1962,
1978, 1980, 1983), justicando a necessidade
de sistematizar e transformar o registro
arqueológico em dados passiveis de mensuração
e modelação (Trigger 2004).
Neste escopo, surge um desdobramento
sobre o conceito de paisagens arqueológicas
e possivelmente este seja o primeiro de uma
virada ontológica amplamente destrinchada pela
arqueologia pós-processual. Segundo Zedeño
e Bower (2009), no âmbito do positivismo que
acompanhou o advento da New Archaeology,
alguns aspectos das dinâmicas da natureza
humana foram negligenciados, onde muitas
das premissas propostas estão elencadas ao
programa de atuação da geograa positivista,
mais preocupada em utilizar ferramentas
quantitativas e analises espaciais em vez da
relação das paisagens culturais.
Although human ecology and cultural
geography have had a great impact on
anthropological theory since the 1930s
(Steward 1955; Steward and Seltzer
1938; Wedel 1941, 1953), the positivism
that accompanied the advent of the New
Archaeology initially bypassed numerous
aspects of human-nature dynamics for
those most likely to create a conspicuous
material record (Binford 1962). At that
time, positivist geographers who favored
quantitative tools of spatial analysis over
the not-so-easily delimited and measured